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Artigo escrito por Afonso Cavalcanti que é Engenheiro Florestal e membro da coordenação do Projeto Quintais Produtivo.

23 de Agosto de 2021 às 16:14 em

PROJETO SEMEAR: Bioma Mata Atlântica, Quintais Produtivos

Insegurança alimentar e os desafios da produção de alimentos em pequenos espaços

residenciais do Bairro do Coqueiral e Microrregião 5.3 da cidade do Recife.

Estima-se que 1 bilhão de pessoas no mundo passa fome. Segundo relatório da ONU

(Organização das Nações Unidas), Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2020

(State of Food Security and Nutrition - SOFI), cerca de 8,9% da população mundial, o equivalente

a 690 milhões de pessoas, foi afetada pela fome no ano passado. O estudo revela que o

problema é maior na América Latina e Caribe onde o custo para aquisição da dieta básica diária

é três vezes maior que em qualquer outra parte do mundo, US$ 3,98. Em outras regiões do

mundo as pessoas em situação abaixo da linha da pobreza gastam em média, US$ 1,06 ao dia

para se alimentar.

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), estima a que a população brasileira

supere a marca de 212 milhões de habitantes, com cerca de 84% desse total vivendo nas cidades

(IBGE, Projeções e Estimativas, 06.04.2021). Com tanta gente vivendo em zonas urbanas,

surgiram abordagens integradas para enfrentar os desafios da pobreza e combate à fome, como

as iniciativas de agricultura urbana. Esse contexto de insegurança alimentar se agravou em

função da pandemia da COVID 19 e pelo desemprego estrutural que atinge aproximadamente

14 milhões de brasileiros. Segundo pesquisa realizada pelo Grupo de Pesquisa Alimento para

Justiça da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, em parceria com a Universidade Federal

de Minas Gerais (UFMG) e com a Universidade de Brasília (UnB), 59,4% dos domicílios do país

apresentaram algum grau de insegurança alimentar entre os meses de agosto e dezembro de

2020. Isso equivale a 125,6 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar durante

a pandemia.

Na cidade do Recife com mais de 467 mil domicílios, cerca de 7,6%, não tem acesso a serviço de

água potável e 52% não dispõe de saneamento básico. Em Coqueiral, bairro da Microrregião 5.3

da cidade, resíduos urbanos são despejados sem tratamento no rio Tejipió que retornam aos

domicílios sempre que ocorre transbordamento por excesso de chuvas. Nesse aglomerado

urbano de 51 hectares, convivem mais de 10 mil pessoas em 3.281 domicílios sem nenhum

planejamento urbanístico4

. É nesse contexto que o Projeto Semear: Bioma Mata Atlântica,

Quintais Produtivos, pretende contribuir para superar os desafios de produzir alimentos

saudáveis em pequenos espaços residenciais.

O principal desafio está relacionado ao espaço físico disponível, ele é pequeno, sujeito a

umidade das chuvas e enchentes do rio Tejipió, com pouca entrada de luz e disputado pelas

demandas da família, como depósito e a criação de pequenos animais. Adequar os sistemas

produtivos às condições do ambiente está na base dos princípios agroecológicos de

sustentabilidade e resiliência. Resiliência é o princípio agroecológico que será mais perseguido

nos quintais produtivos do Projeto Semear. O processo de seleção das famílias que se

candidataram para participar do projeto deixou claro que a superação dos desafios exigirá

estratégias apropriadas a cada realidade visitada.

Estratégias simples como produzir em vasos5

, porque não há espaços de terra disponíveis,

praticamente é tudo cimentado, suspensos e fixados em paredes para sobreviver as inundações

e móveis para otimizar o acesso a luz solar, muito reduzido na maioria dos quintais. Em alguns

lugares, será necessário trocar telhas de partes de coberturas em alguns quintais para permitir

a passagem da luz. O principal e maior desafio será produzir em espaço de circulação de pessoas,

como paredes de becos estreitos com a presença de animais domésticos. Embora pareçam

limitantes, os desafios identificados pela equipe do Projeto Semear representam um estímulo a

experimentação e adaptação de iniciativas com as famílias, capazes de vencer as dificuldades e

encontrar soluções para problemas comuns a esmagadora maioria das comunidades periféricas

brasileiros.

Artigo escrito por: Afonso Cavalcanti que é Engenheiro Florestal e membro da coordenação do Projeto Quintais Produtivo.

  • 1Alimentos produzidos sem o uso de agrotóxicos, fertilizantes químicos e em respeito à natureza, as pessoas que produzem e aos
  • consumidores.
  • 2Produção de alimentos, ervas medicinais, plantas condimentares e ornamentais em quintais domésticos ou em estruturas verticais
  • em outros ambientes da residência em vasos ou outras estruturas.
  • 3Feiras de alimentos e outros produtos produzidos com base em princípios da agroecologia, comercializados diretamente aos
  • consumidores de acordo com a Lei 10.831 de dezembro de 2003.
  • 4Site da Prefeitura da Cidade do Recife.
  • 5Vaso – qualquer recipiente comprado no comércio ou reutilizado para acomodar solo e cultivar plantas.